"Autopsicografia (Fernando Pessoa)
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração"
<3
Desde ontem me sinto assim. Venho fingindo que me satisfazem essas falsas relações construídas a partir das aparências e que não se aprofundam porque ninguém está realmente disposto a abrir mão da liberdade e do ego. Eu finjo que estou com alguém que finge que gosta de mim. Entretanto, não questiono se sou a única pois ele também não o é. E de que valeria uma pergunta para a qual eu não responderia com sinceridade? Tornou-se um círculo vicioso vazio do qual, por algum motivo oculto, eu me cansei.
Existe solução para isso? Não se pode pedir para uma laranja que já nasce mofada se desintoxicar. Da mesma forma que amigos meus comprometidos estiveram por lá ciscando no terreiro alheio, é da natureza de quem curte estar no Tinder® poder ser o pavão de um vasto leque de opções. Eu levei meses para chegar a esse amadurecimento, assim como conheci gente que rapidamente viu que estava tudo errado no processo.
Quando me sinto sufocada, quero sair correndo de onde estou e sumir!!! Em outras palavras, o ímpeto inicial era simplesmente dizer a ele que não quero mais. Por outro lado, sendo essa sensação recente, devo esperar a poeira abaixar e refletir sobre o que eu realmente espero dessa fase da minha vida. Observar o que a pessoa está disposta a dar de si. Deixar amadurecer a ideia, que pode estar disfarçada de ciúmes, porque sou possessiva por natureza. E ver se, porventura, esta pessoa caminha naturalmente na mesma direção que eu.
Do contrário, segue-se adiante pois não compensa essa sensação de coração apertado todo dia por um motivo diferente.
"E assim nas calhas de roda gira, a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração..."
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